segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Fragmento


(...)

Eu:

Cacete....

Ele:

vc foi a pessoa mais digna de se casar que ja encontrei

Ele:

e que jamais encontrarei

Eu:

Pára.

Ele:

paro

Eu:

Você é perigoso.

Eu:

Mas eu poderia ficar aqui a noite inteira falando com vc e te dizendo o quanto é especial.

Eu:

mas vou dormir pq essa conversa já passou dos limites.

Ele:

sim

Ele:

ja passou

Eu:

...

Ele:

bem

Ele:

boa noite, rique.

Eu:

Ok.

Ele:

durma bem

Eu:

Boa noite.

Ele:

Durma bem, você também...

Ele:

sonhe com os anjos

Eu:

vc tbm...

Ele:

um beijo

Ele:

o beijo que eu nunca te dei.


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Off



quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Terceiro Desejo (recortes)


"Unfathomable Sea! whose waves are years,
Ocean of Time, whose waters of deep woe
Are brackish with the salt of human tears!
Thou shoreless flood, which in thy ebb and flow
Claspest the limits of mortality,
And sick of prey, yet howling on for more,
Vomitest thy wrecks on its inhospitable shore;
Treacherous in calm, and terrible in storm,
Who shall put forth on thee,
Unfathomable Sea?"

- Time, by Percy Shelley -


Eu nunca pensei que algum dia teria o tempo em minhas mãos. Eu, como alguém que sempre amou o passado - quanto mais remoto, melhor - sempre me senti ofendido pela forma brusca que o tempo adota para passar por nós, destruindo e construindo a seu bel prazer tudo o que ele quiser, trazendo e levando as pessoas de nossas vidas.

A primeira vez em que tentei parar o tempo a próprio punho ocorreu aos meus 14 anos. Era algo instintivo. Em algum nível eu sabia que aquele ano específico seria um dos mais fundamentais para o resto da minha vida. Meus rumos, meus desejos e minha fé tomaram forma definitiva naquele ano. Assim, noite após noite um rigoroso ritual ocorria: abajour aceso, Trakinas de morango, água gelada, cd's, diskman e a estrela do plano: um diário.

Aos 14 anos a última coisa que você realmente deseja é ter de separar um período de sua noite para escrever sobre o seu dia, relatando impressões a respeito do passado, do presente e do futuro. São tantas as experiências, planos, pessoas... Confesso, portanto, que o diário em questão não é um registro absurdamente detalhado de meus dias naquela época. Ainda assim, eu o fiz. Me sentia ousado ao fazê-lo. Realmente poderoso.

Esculpi à mão aquilo que em realidade era um portal rasgado na antiga face do tempo. Eu recortava a cada noite uma fina linha da grosseira malha temporal que me envolvia e o fazia sem ter consciência de que tal ato era uma afronta ao tempo. Um desafio que tinha como objetivo um presente raro e pessoal destinado a um futuro eu. Aquelas folhas seriam a prova de que apesar de tudo, um pedacinho dele estava ali, nas minhas mãos, atravessando eras. Escrevi um troféu de uma batalha que venci contra o tempo. Sim, jamais a guerra, eu bem sei...

Ao me deparar com o diário agora, dez anos depois de sua confecção, me dei conta de que há em mim um mar de angústias que gritam em nome de tudo aquilo que ficou para trás, esquecido e empoeirado. Estas páginas atravessaram os anos para me dizer que ao menos uma vez arranhei a face do tempo e salvei tudo o que me tocou ao longo de um ínfimo ano de minha existência.

Tal presente é um privilégio. Queria lhe agradecer. Queria poder escrever e recortar minha própria parcela de tempo, para enviá-la de volta a ele e plantar um pouco de alívio num coração que está preso há anos atrás.

Seria uma forma especial de dizer a ele para ficar tranquilo, para respirar fundo e acreditar, pois tudo, absolutamente tudo, ficará bem. E ele chegará aqui são, salvo e, acima de tudo, muito feliz.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Segundo Desejo (noite na pedra)

A música de lá me faz querer tocar
melodias estranhas a nós,
dedicá-las ao céu e chegar,
quem sabe, a corações
e faces amigáveis
de vizinhos irreconheciveis.
Sombras coloridas de uma orquestra universal,
tons menores de estrelas cadentes.
Quero que minhas notas sejam sussurros universais
em todos cantos do firmamento.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Primeiro Desejo (noite no jardim)


Queria que chovesse por anos
para que o sal que ainda me cobre deslizasse
e exibisse a este antigo mundo
as cores apagadas que trago em mim

Cada vez que o sol vem e me abate
violentamente sinto o sentido desmoronar
e as horas derretem e os cometas desabam
falsas promessas e minhas farsas poses
máscaras claras máscaras doces
ficam quietas e escondem do mundo
as cores apagadas que trago em mim

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Secrita Clantu Treir (Mare Hymne)


Navion svenita clanto da mareas
Orionta bist píseog atlas dü neir

Anda hi, altaz undas
Anda hi, altaz undas

Navion svenita clema de Saiissa
Orionta se Lir crina toas sereas

Calman se, altaz undas
Calman se, altaz undas

Navion svenita clanto da mareas
Orionta se Lir creina toas sereas

Creina seree sire lir navion sveniti
Navion se
Navion se

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Autumn's Child

A última vez em que o vi foi em uma lenta tarde de junho.

Estava abaixado, com a sua face voltada para o chão, não movendo seus finos olhos em direção alguma. E como eram negros, aqueles olhos. Ousadamente negros. Lembro deles como se os tivesse visto ontem.

Entoava quase internamente uma cantiga provavelmente mais velha que o tempo; e suas vestes simples e de uma só cor - de terra - faziam sentido em seu tímido balançar. Estava devastado por dentro e vazio por fora. Estranho e quase nu. Derrotado.

As folhas ao seu redor rodopiavam, distraiam e disfarçavam. Eu poderia ficar horas ali, encantado com a terrível cena. Talvez ele mesmo estivesse ali há horas. Há dias, talvez.

Então um súbito raio de orgulho surgiu, revivendo aquela pequena alma. Ganhou força e ergueu sua cabeça, exibindo sua face delicada como se fosse rara gema exposta ao sol nascente. Pálido e sem culpa nos olhos, abriu suas asas e voou.

Cansou de contar seus segredos para as mesmas folhas mortas.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Romani

A cena se divide em duas partes: um mar de ondas de areia branca e um infinito céu escuro, repleto de estrelas cravadas em sua superfície lisa, lideradas por uma lua crescente. Apenas a fogueira define de forma delicada o limite entre o que é areia e o que é céu. Suas chamas queimam não apenas a madeira, pois também se alimentam dos sonhos opacos daqueles que a sua volta se encontram. Indivíduos sem história, tempo ou lugar. Seus sonhos nada mais são do que lembranças de alguém que viverá incontáveis anos a frente deles mesmos.

Ao olhar a lua minguante no céu, eu penso sobre como aquela mesma lua se encontrava ali quando o primeiro homem descobriu o fogo e a noite iluminada. Me choca a idade do tempo. E mais que isso, me choca sua inexistência exata. Tal inexistência sim é O Mistério, prova de que algo superior a nós nos observa e nos fala. Aquelas pessoas em volta da fogueira não me enxergam. Eu me sinto atraído por suas vestes, seus aromas e seus sons. Me aproximo.

Fita vermelha ao vento. Pandeirola em mãos em ritmo circular, quase hipnotizante. Ela roda em torno do fogo como se tal dança fosse a única missão de sua ínfima existência. Dona de uma longa saia também vermelha e de cabelos longos e negros, ela dança como a lembrança vaga que é. Seus olhos parecem vazios. Eu sinto algum conforto em sua dança e percebo claramente que respeito esta mulher.

Sentado na areia, sem piscar, um homem de olhar negro e pele avermelhada me desafia. Seus cabelos pretos estão parcialmente escondidos por um lenço; suas mãos tiram sons de seu instrumento como se fossem seres com vontade própria. Não gosto dele, sem exatamente encontrar uma razão para isto. Tal homem instiga em mim sentimentos estranhos e sem nome. Ele me incomoda de forma íntima, quase proposital.

Então olho o fogo; e sem ter grandes esperanças relacionadas à minha vida, finalmente entendo. Contudo, momentos assim, de epifania, podem ser como pequenas desgraças que, apesar de passageiras, deixam marcas eternas. Em tais momentos, a vida faz todo sentido. Escutamos Deus e enxergamos o tempo, mas não conseguimos expressar tal conhecimento. É algo que deve ficar preso, silente em nossa alma.

Mais que a audaciosa mulher, ele me intriga - e o faz em silêncio – pois seu olhar fixo no fogo me diz que ele sabe que está sendo observado. É num misto de conforto e dor, de saudade e angústia, que eu entendo:

Aquele homem sou eu.